O que nos define? {batata doce “frita” no forno}

Tinha 18 anos e estava a ter aulas de condução. Na época uma das minhas maiores dificuldades era o estacionamento. As regras aprendidas em aula eram demasiado complexas. Tinha de ser tudo perfeito e nunca podia ir ao passeio. Nunca tocar com o pneu no passeio. E todos nós condutores sabemos que muitas vezes é o que mais nos ajuda [mas adiante]. Mal sabia que ia ter uma aula de condução ficava logo demasiado nervosa, o que não ajudava em nada… 

Era um dia de primavera e arranjei-me para ir dormir. No dia seguinte ia ter aula de condução e o exame aproximava-se a olhos vistos. Estava mesmo ansiosa. 
Acho que mal adormeci comecei logo a sonhar. Sonhei que estava a conduzir o carro da minha mãe. Ia ao meu lado um amigo meu. Vi um lugar de estacionamento. Estava feliz. Pois havia feito toda a condução maravilhosamente bem. Sem nenhum erro. Nenhuma falha. O momento do estacionamento aproximava-se mas eu estava tranquila. E estacionei. À primeira. Com uma perfeição incrível. O peito encheu-se de orgulho e sorri para o meu amigo. 
Nesse instante ele olhou para mim orgulhoso só que o queixo dele começou a crescer, a crescer e a ficar azul. Eu não tinha medo. Ria-me muito. Mas notei que ele também se ria muito e apontava para mim. Olhei-me ao espelho retrovisor e eu também me estava a transformar. Entretanto o carro aumentava e também se transformava e todo o ambiente estava a alterar-se para uma espécie de desenhos animados. O automóvel aumentou tanto que eu já podia andar em pé dentro do mesmo. O meu amigo desapareceu. Nesse momento começaram a “sair” pessoas dentro de mim. E diziam: ” eu sou influência da tua mãe” “eu sou influência do teu pai” “eu sou influência da tua irmã mais velha” “e eu da tua irmã mais nova” “sou influência da Marta”, “da Rita”, “da Joana”, “da Maria”… E enquanto centenas pessoas saiam do meu corpo, iam aglomerando-se numa espécie de plateia em que o automóvel se tinha transformado. E eu gritava, já desesperada, chorava compulsivamente dizendo: “E eu? Quem sou eu? Onde estou?
Como disse anteriormente tinha 18 anos. Este sonho foi uma revelação. De tal forma que hoje ainda me recordo dele como se o tivesse acabado de ter. A sensação e aceitação de perceber que sou só um conjunto de influências não foi fácil. Mas hoje entendo bem que é tão verdade. Somos realmente um conjunto de todas as pessoas que nos rodeiam. Que nos influenciam positiva e negativamente. E todas as nossas emoções e sentimentos vão-se moldando em consonância com o que vamos vivendo e experienciando. Apesar de acreditar que nascemos já com uma personalidade que nos define, tenho a certeza de que todas as nossas vivências fazem de nós quem somos.
Hoje compreendo que é inevitável aceitar aquilo que somos e no que nos tornamos. Numa tentativa diária de nos melhorarmos, sempre, mas aceitando quem somos, com todos os defeitos e virtudes. Conseguir transformar as nossas más experiências em algo positivo. Fazer a análise psicológica de que somos um produto de todos os que nos rodeiam. E se assim o é, porque não tentar ser o produto do melhor de cada um. 
Conseguir por fim à vitimização. Temos nas nossas mãos a possibilidade de não sermos vítimas do que nos aconteceu no passado ou mesmo no presente. Está sempre nas nossas mãos transformarmos as experiências negativas em algo positivo. 
E agora entendo, somos um círculo, rodeado de tantas pessoas. O que me interessa neste momento é que esse círculo, aquele bem fechado à minha volta seja composto somente pelas pessoas que tão bem me fazem.
Que a nossa vida seja assim um círculo perfeito e tosco como este de batata doce. Saboroso, crocante, delicioso, bonito, saudável e com os defeitos que nos são permitidos. 🙂

Batata doce “frita” no forno
Ingredientes:
2 batatas doces
1 c. de chá de alho em pó
coentros picados finamente
pimenta rosa q.b.
sal q.b.
1 c. de sopa de azeite
Preparação:
Pré-aqueça o forno a 190º C.
Corte a batata doce em rodelas muito fininhas com a ajuda de uma mandolina.
Seque muito bem a batata e numa taça coloque os restantes uingredientes e misture muito bem com as mãos.
Numa frigideira distribua as rodelas num círculo e leve ao forno durante 15 minutos ou até ficarem bem douradas e estaladiças.
Ingredientes para o molho:
1 iogurte natural
1 c. de café de salsa seca picada
1 pitada de alho em pó
Sal e pimenta q.b.
Preparação:
Misture todos os ingredientes e sirva por cima das batatas quentes.
O que nos define? {batata doce “frita” no forno} Comentários
  1. parece-me muito bem esta receita. Adorei a sua partilha da condução e de todo o texto que o envolve, porque penso que de uma maneira ou de outra tudo o que escreve adequa-se de uma maneira ou de outra a todos nós e eu estava a ler e a sentir o pânico de arrumar o carro entre duas grades à primeira pois nunca conseguia durante as aulas mas naquele bendito dia em que já tinha feito a volta da cidade já tinha cometido dois erros, que segui outros condutores só pq sim qd devia fazer exatamente como diz o código …que estava em pânico. Convém dizer que na altura tinha 24 anos, portanto há 41 anos atrás o exame era feito perto do estádio do Benfica donde se partia para a volta da cidade e depois no regresso fazíamos a inversão de marcha e arrumávamos o carro. Tb me lembro como se fosse hoje a pergunta do examinador:
    Quer mesmo ir lá dentro fazer a arrumação do carro? É que se for não poder ter nenhum erro.
    Apesar da responsabilidade que senti nos ombros, pensei, perdido por 100 perdido por mil. Não perco nada em levar isto até ao fim e como não quero cá voltar vamos em frente.
    Concentrei-me de tal maneira fui buscar ao subconsciente todos os ensinamentos do meu instrutor e lá vou…
    E não é que fiz logo tudo `primeira. Como fiquei feliz. Tem razão em tudo o que diz no seu texto.

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